Delator detalha encontros com Hartung para repasses em 2010 e 2012

0

Benedicto Júnior afirmou que o governador “não era patrimonialista” e que Odebrecht não recebeu contrapartidas no Espírito Santo

O ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura Benedicto Júnior, o BJ, afirmou em delação premiada que se reunia pessoalmente com o governador Paulo Hartung (PMDB) e que repassou dinheiro para campanhas eleitorais de aliados do peemedebista, a pedido dele, em 2010 e 2012. O ex-executivo disse que eles se encontravam no escritório de Hartung, na Reta da Penha, e que trocavam telefonemas e e-mails.

O vídeo com a delação, com duração 10’55”, foi divulgado pelo portal G1 na noite desta quinta-feira (12). Pela manhã, o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia entregado os HDs com todas as gravações dos delatores à imprensa.

O delator contou aos procuradores da Lava Jato que realizou quatro pagamentos de R$ 250 mil, em 2010, a Neivaldo Bragato, ex-chefe de gabinete de Hartung. Aliado histórico do peemedebista, Bragato teria sido indicado pelo próprio governador por ser pessoa de confiança dele.

“Ele indicou pessoa da confiança dele, que era o Neivaldo Bragato. Coloquei o Sérgio Neves, que era o diretor-superintendente que cuidava de Minas e Espírito Santo, em contato com o Neivaldo Bragato. E o Sérgio Neves me informou que fizemos quatro pagamentos de R$ 250 mil cada um. Foram feitos no Rio de Janeiro. Em hotéis no Rio de Janeiro, em espécie”, declarou o delator.

BJ afirmou que foi novamente procurado por Hartung em 2012, quando aliados dele disputaram eleições municipais. “Ele me procurou e pediu contribuição para o partido… os candidatos que o partido apoiaria no Espírito Santo”, declarou. Nesse caso, conforme BJ, foram destinados R$ 80 mil. O pagamento, de acordo com ele, foi feito via Roberto Carneiro (PDT), que trabalhava no escritório de campanha do PMDB em Vitória.

No atual governo, o pedetista foi subsecretário da Casa Civil e, hoje, é diretor-geral da Assembleia Legislativa.

“Eu autorizei e fizemos uma doação de R$ 80 mil para campanhas do PMDB no pleito municipal no Espírito Santo. Essa programação foi cumprida no dia três do nove de 2012, em Vitória. O Sérgio Neves me informou que a pessoa que fez a recepção desse dinheiro foi uma pessoa chamada Roberto Carneiro, que trabalhava no escritório de campanha do PMDB lá em Vitória”, disse.

Benedicto afirmou que todos os montantes foram pagos por caixa 2. Questionado pelos procuradores se Paulo Hartung sabia que as doações não seriam feitas de maneira ilegal, o delator respondeu assim:

“Quando ele me pediu dinheiro nós dois não discutimos. Depois, quando o Sérgio Neves conversou com o Neivaldo eles detalharam como seria. Como era um valor muito acima de uma doação que nós faríamos para um partido ou um candidato, o Sérgio ficou… o Neivaldo inclusive de fazer caixa 2. Como o Neivaldo era uma pessoa de confiança do doutor Paulo, eu pressuponho que o doutor Paulo sabia que nós íamos fazer em caixa dois.”

POSTURA

O delator foi perguntado sobre quais benefícios concretos Paulo Hartung concedeu à Odebrecht. Benedicto afirmou que nenhum. Nesse aspecto, ele elogiou o governador capixaba. “Ele não era pessoa patrimonialista, preocupada com aspectos financeiros. Ele cuidava da política, do partido dele. Nunca tive uma agenda pra dizer ‘olha, ele fez isso por mim'”, disse.

O governador Paulo Hartung foi procurado pela reportagem na noite desta quarta-feira (12), mas a assessoria de imprensa do peemedebista afirmou que ele não comentaria os fatos narrados pelo delator.

Encontros aconteciam na Reta da Penha

Detalhe da fachada do edifício mencionado por delator
Detalhe da fachada do edifício mencionado por delator
Foto: Arquivo

O então presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Júnior, trabalhava no Rio de Janeiro, mas fazia questão de se deslocar até Vitória para conversar pessoalmente com Paulo Hartung (PMDB). Os encontros, de acordo com o relato do agora delator, ocorreram em 2010, quando o peemedebista exercia o último ano de mandato à frente do governo do Estado, e em 2012, ano em que ele não ocupava cargo eletivo.

O local escolhido para as reuniões era o escritório de Hartung, localizado no edifício Corporate Center, na Reta da Penha, em Vitória, descrito pelo delator como “escritório para projetos financeiros”. Quando deixou o governo, Paulo Hartung passou a atuar na empresa Éconos – Economia Aplicada aos Negócios Ltda, justamente neste endereço.

Benedicto Júnior, no entanto, disse que o tema das conversas eram “assuntos privados” e que não houve pedido de benefícios à Odebrecht.

Durante o depoimento, o delator foi perguntado sobre se houve alguma tratativa com o governador no Palácio Anchieta. BJ, como é mais conhecido, responde que não.

“Não teve encontros no Palácio porque ele nem era mais governador. Foi sempre no escritório dele, na Avenida Nossa Senhora da Penha”, conta.

Em resposta a outra pergunta, o delator ressalta que trabalhava no Rio, mas que seguia para Vitória “especificamente para conversar com ele (Hartung)”.

Entre as provas citadas pelo delator para demonstrar essa ligação e corroborar os pagamentos ilícitos – ainda que BJ não especifique onde o pedido de doação foi feito –, estão o extrato do programa de gerenciamento de e-mails e os dados dos contatos que usava para conversar com “o doutor Paulo”: “Os telefones, os e-mails pessoais dele, endereços onde eu me encontrava com ele”.