Sob ataque de Bolsonaro, governadores organizam compra conjunta de vacinas

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O governador do Espírito Santo, informou que os estados e o Distrito Federal realizarão compras conjuntas de vacinas. Nesta terça-feira, 18 governadores visitarão, em Brasília, a sede da empresa União Química, que representa no Brasil a vacina russa Sputnik V. Articulam também uma reunião com o presidente da Câmara, Arthur Lira.

Por: Josias de Souza/Colunista do UOL

De acordo com Casagrande, os 27 governadores estão comprometidos com o movimento. “Não haverá a formalização de um consórcio. Nossa ideia é comprar cotas proporcionais à população de cada estado. Nenhum estado comprará mais do que o equivalente ao percentual de sua população. Sempre que comprarmos, haverá uma distribuição equitativa de doses. E cada estado pagará a sua cota, fazendo um contrato com o laboratório.

“Após um ano de pandemia, o país vive o pior momento. Casagrande lamentou o comportamento de Bolsonaro. “Hoje, temos 20 estados com dificuldades de
atender às pessoas que precisam de UTI. E o presidente, na semana do pior
momento da pandemia, dá uma declaração menosprezando as máscaras. Não
é fácil. Por isso iremos a Brasília. Já fizemos uma reunião com o Rodrigo
Pacheco [presidente do Senado]. Estamos pedindo para que seja nesta terça-feira a reunião com o Arthur Lira.”

Na opinião do governador capixaba, o Brasil foi derrotado pela Covid-19.
“Perdemos a guerra. Se tivéssemos fechado contratos para a aquisição de
vacinas antecipadamente poderíamos ter muito mais doses. Perdemos a guerra
porque estamos assistindo à morte de 1.200 pessoas, 1.300 brasileiros por dia.
É uma bomba atômica. É como se tivesse caído uma bomba atômica no Brasil.
Temos mais de 250 mil mortos. É muita gente.”

Casagrande faz alusão aos ataques atômicos sofridos pelo Japão. Em 6 de
agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram uma primeira bomba sobre
Hiroshima. Três dias depois, Nagasaki teve a mesma desventura. As cifras não
são precisas. Mas aceita-se em geral a soma de cerca de 140 mil mortos em
Hiroshima e 70 mil em Nagasaki. Vai abaixo a íntegra da conversa com Casagrande:
O presidente voltou a questionar o uso de máscaras e o isolamento social.

Atacou os governadores. Existe alguma estratégia conjunta dos governadores
para enfrentar a pandemia à margem da Presidência da República? Estamos
estabelecendo contato com o Congresso e com o Supremo Tribunal Federal. O
Bolsonaro não vai deixar de ser negacionista. Fará sempre o enfrentamento com
os governadores. Tenta responsabilizar os governadores pela irresponsabilidade dele. Ele quer dar argumento e narrativa para sua base. Essa base é orientada a enfrentar os governadores num nível de irresponsabilidade muito grande.

— Há algo encaminhado com os presidentes da Câmara e do Senado? O
próprio Arthur Lira anunciou que vai conversar conosco nesta semana.
Queremos marcar para esta terça-feira, porque estaremos quase todos em
Brasília.
— Os governadores irão à Brasília para quê? Faremos uma visita à União
Química, que representa a vacina Sputnik V. A análise do pedido de autorização
à Anvisa para uso emergencial dessa vacina está na fase final. Já tomamos uma
decisão dos 27 governadores. Faremos compra conjunta de vacinas quando
encontrarmos. Estamos tentando nos virar. Torcemos para que o cronograma
das vacinas se consolide a partir deste mês de março, com um volume maior de
entregas do Instituto Butantan e da Fiocruz. Mas estamos decididos a obter
mais vacinas. Todos os 27 governadores estão juntos nesse trabalho.
— Quantos governadores viajarão a Brasília? Tenho a lista aqui. Além do Espírito
Santo, confirmaram a visita à União Química, para a compra de vacinas, os
governadores do Distrito Federal, Piauí, Rio Grande do Sul, Goiás, Amapá,
Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Maranhão, Mato Grosso, Tocantins,
Ceará, Pernambuco, Alagoas, Pará, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro.
— O governador João Doria, de São Paulo, participa desse entendimento? Ele
disse que não poderá comparecer a esse encontro de terça-feira. Mas estará
junto na compra de vacinas, quando encontrarmos para comprar.

— A ideia é fazer um consórcio de estados? Não haverá a formalização de um
consórcio. Nossa ideia é comprar cotas proporcionais à população de cada
estado. Nenhum estado comprará mais do que o equivalente ao percentual de
sua população. Sempre que comprarmos, haverá uma distribuição equitativa de
doses. E cada estado pagará a sua cota, fazendo um contrato com o
laboratório.
— Existe a intenção de negociar com outros laboratórios, como a Pfizer? Sim
temos essa intenção.
— Alguém coordena os contatos? O Wellington Dias, do Piauí, está fazendo isso.
Estamos em contato com os embaixadores da China, da Índia e da Rússia. O
embaixador da Rússia inclusive estará conosco nessa visita à União Química.
Por intermédio dos embaixadores, estamos marcando reuniões com os
laboratórios. Só vamos comprar o que estiver certificado com a Anvisa ou outro
órgão certificador de reconhecimento internacional.

— Com esse entendimento entre os governadores, acha possível gerenciar a
pandemia sem o Palácio do Planalto? É muito mais difícil. Estamos vivendo
nesses últimos dias o pior momento da pandemia —maior número de mortes,
quantidade maior de estados em situação de quase colapso do sistema de
saúde. Hoje, temos 20 estados com dificuldades de atender às pessoas que
precisam de UTI. E o presidente, na semana do pior momento da pandemia, dá
uma declaração menosprezando as máscaras. Não é fácil. Por isso iremos a
Brasília. Já fizemos uma reunião com o Rodrigo Pacheco [presidente do
Senado]. Estamos pedindo para que seja nesta terça-feira a reunião com o
Arthur Lira [presidente da Câmara].

— O que desejam do Congresso? A demanda por leitos de UTI é forte, a
necessidade de recursos financeiros para podermos dar conta da abertura
desses leitos é grande. Sem o governo federal, as coisas ficam mais difíceis.
Seria mais adequado que tivéssemos uma coordenação nacional. Estamos
tentando amenizar e compensar isso com uma participação mais forte do
Congresso Nacional.

— O objetivo é obter verbas? É mais do que verba. Precisamos de verba
também. Mas estamos procurando aliados para promover um movimento
nacional em favor da implementação das orientações científicas. O presidente
da República não nos ajuda. Se os presidentes da Câmara e do Senado se
manifestarem nessa direção, a gente se fortalece. Precisamos sair dessa
guerra. Então, é mais do que verba. Precisamos de alinhamento político em
torno de uma concepção científica para o enfrentamento da crise.

— O Ministério da Saúde deixou de liberar verbas? Nesse ano, ainda não
liberou. Mas o ministro disse que vai liberar recursos para os hospitais.
— Qual é hoje o percentual de ocupação das UTIs no Espírito Santo? Nós temos
uma taxa de ocupação de 70%. Não é das mais desesperadoras. Tanto é que
recebi aqui 36 pacientes do Amazonas, 30 de Rondônia. Estamos ajudando
outros estados, na medida das nossas possibilidades.
— A nova variante do vírus, surgida no Amazonas, chegou ao Espírito Santo?
Sim, mas não houve ainda uma transmissão comunitária. O paciente foi isolado.
— Se comprarem vacinas diretamente, os estados poderão pedir ressarcimento
à União? Podemos, sim, pedir o ressarcimento. Essa é a ideia. Mas não é algo
que estejamos valorizando no momento. Governadores estão reservando
dinheiro para comprar vacinas.

— Em tese, quem tem que arcar com a compra de vacinas para o programa
nacional de imunização é o governo federal, não? É o Ministério da Saúde. O
próprio ministro disse que fará o ressarcimento. Mas independentemente disso,
se vai ter ressarcimento ou não, estamos dispostos a comprar vacinas, se
encontrarmos.
— Já sabem quantas vacinas a União Química pode fornecer? Eles não têm
muitas doses. Parece que dispõem imediatamente de 4 milhões de doses.
Depois, ainda me março, 10 milhões de doses. Mas já é alguma coisa. Pode ser
que o governo federal compre essas vacinas. Talvez não esperem os governos
estaduais comprarem. De qualquer maneira, estamos acompanhando todos os movimentos. Vemos, por exemplo, o movimento Vacina para Todos, esforço que
a Luíza Trajano [do Magazine Luíza] está fazendo. Está tentando articular a
participação dos empresários junto ao Ministério da Saúde e aos estados. O
objetivo é antecipar para setembro o fim da vacinação. Tem muita gente se
envolvendo, para tentar compensar o atraso provocado pelo governo federal.
— Acha razoável que os empresários comprem vacinas? Acho que todo mundo
tem que comprar, para entregar ao plano nacional. Há empresários dispostos a
comprar. Essa é a proposta da Luíza Trajano. Comprar e entregar para o
Ministério da Saúde.
— Uma das propostas que tramitam no Congresso prevê que os empresários
repassariam para a União apenas 50% das doses que comprarem. Acha
adequado? Defendo que as empresas que se dispuserem a adquirir vacinas
repassem 100% das doses para o Ministério da Saúde. Nesse momento em que
tantos brasileiros perdem a vida, com o Brasil atrasado na vacinação, não é
correto permitir que quem tem dinheiro se vacine primeiro. Temos que entregar
todas as vacinas para o plano nacional, que cuida da distribuição.
— O Brasil perdeu a guerra para o coronavírus? Perdemos a guerra. Se
tivéssemos fechado contratos para a aquisição de vacinas antecipadamente
poderíamos ter muito mais doses. Perdemos a guerra porque estamos
assistindo à morte de 1.200 pessoas, 1.300 brasileiros por dia. É uma bomba
atômica. É como se tivesse caído uma bomba atômica no Brasil. Temos mais de
250 mil mortos. É muita gente.
— Em que medida a ausência de uma coordenação nacional da crise sanitária
influiu no resultado? É fácil de compreender que, se tivéssemos uma
coordenação nacional, estabilidade no Ministério da Saúde, e uma
preocupação do presidente da República em coordenar essa ação, o Brasil
certamente estaria enfrentando essa pandemia com um nível de politização
menor. Claro que teríamos mortos. Mas não seriam tantos. Hoje, em meio à
campanha de vacinação, faltam vacinas. E há pessoas que não querem se
vacinar. Tem gente que se recusa até a usar máscara. É gente que segue o
presidente da República, que não oferece bom exemplo. O trabalho fica muito mais difícil. Evidentemente, muitas mortes poderiam ter sido evitadas se estivéssemos todos atuando na mesma direção…