Zeca Pagodinho sobre Xerém: “Dá nojo de político, dá nojo desta gente bandida”

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RIO –

Morador de Xerém, distrito de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense durante 20 anos, o cantor e compositor Zeca Pagodinho esteve na região afetada na manhã desta quinta-feira (3) para visitar seu sítio, que fica muito próximo da região do Café Torrado (a mais afetada de Xerém) e para ajudar amigos de longa data.

Usando um quadriciclo motorizado, o cantor passou o dia circulando pelas ruas enlameadas e ajudando seus vizinhos atingidos pelas chuvas. Ao dar entrevistas ás equipes de televisão, não escondia sua comoção com o que estava acontecendo aos moradores do distrito. Em certo momento, seu desabafo foi forte:

“É muito ruim ver Xerém assim”, disse o sambista em entrevista à TV Bandeirantes. “Tem muita gente pobre, muita gente sofredora e tem o lixo para infernizar mais ainda a vida. Eu tenho carro, mas tem gente que não tem. O único caminho que sobrou (depois dos deslizamentos de terra) é lixo puro. Dá nojo de político, dá nojo desta gente bandida”, disse ele numa clara referência à irregularidade na coleta de lixo .

Acompanhado da filha, Zeca Pagodinho percorreu ruas de Xerem para ajudar moradores

Logo após chegar em seu sítio em Xerém na manhã desta quinta (3) e se deparar com o cenário de destruição, Pagodinho passou a divulgar na rede social Facebook uma campanha para angariar donativos.

 

Em meio ao desespero durante a enxurrada, os moradores se uniram para tentar salvar parentes e amigos levados pela correnteza. Com cordas e boias improvisadas, os homens se arriscaram para retirar crianças e mulheres que tentavam atravessar as ruas tomadas pela correnteza.

“A preocupação era só salvar as vidas. Resgatei uma criança que pediu ‘tio, por favor, eu não quero morrer’. Pensei no meu filho e quis chorar, mas prometi a ela que nada lhe aconteceria”, disse o morador Alcimar Belieni, de 34 anos, ainda coberto de lama após passar a madrugada ajudando os vizinhos.

Em alguns pontos, a lama chegou a mais de três metros de altura e tomou casas inteiras. A região está sem luz e sem sinal de telefone. Com parte da casa destruída e lama na altura de dois metros dentro de sua casa, o comerciante Robério Cavalcante, de 34 anos, não sabia por onde recomeçar.

“Só deu tempo de tirar meus filhos e minha mulher. Quando sai com o carro, vi o muro desabar e a enxurrada arrastar outros carros. Só perdemos coisas materiais, vamos reconstruir tudo. Mas é difícil ver a casa que você suou tanto para construir dessa forma”, lamentou.

Pela manhã, o prefeito Alexandre Cardoso percorreu os bairros mais atingidos e decretou estado de emergência na região. A chuva teve início à meia-noite, mas por volta das 2h se intensificou e o nível dos rios Saracuruna, Inhomirim e Capivari começou a subir rapidamente. O fenômeno, conhecido como tromba d’água, arrastou árvores, eletrodomésticos e carros.

Os entulhos trazidos pela água formaram uma represa no leito do rio Capivari e a força das águas sem vazão ocasionou a derrubada de casas e árvores. Uma ponte foi destruída e outras duas foram interditadas com risco de desabamento.

“Acordei com um forte estrondo e depois ouvi os gritos dos vizinhos, que passavam avisando da enxurrada. Só deu tempo de descer as escadas antes de desabar”, contou a dona de casa Osana Ferreira, de 41 anos. “O pior é ver amigos, conhecidos morrendo e não poder fazer nada. Vi uma família inteira em cima de uma laje que desabou”, contou a moradora do bairro de Pedreira, um dos mais atingidos pelos estragos.

A chuva só deu uma trégua aos moradores por volta das 8h, mas a correnteza dos rios continuou forte durante toda a manhã. A Defesa Civil e o Corpo de bombeiros interditaram diversas casas embaixo de morros com risco de desabamentos. Ruas inteiras próximas ao leito dos rios foram bloqueadas, pois o asfalto ameaça ceder. Máquinas tentam retirar os entulhos para desobstruir o leito dos rios e dar mais vazão à água.

A principal delas, criada por Clarisse Miranda Gomes, pede que a população doe alimentos não perecíveis, remédios, roupas, brinquedos e muita água. Um trecho da postagem, no entanto, chama a atenção dos internautas.

Não quero entregar no Corpo de Bombeiros nem no Exército da Salvação, prefiro fazer uma entrega pessoal!“, diz a mensagem.

No final do dia, na sua página do Facebook ele dava dicas de como ajudar aos vizinhos atingidos:

O Museu Ciência e Vida lançou nesta quinta-feira (03/01) uma campanha de donativos para as vítimas da chuva do município de Duque de Caxias. A forte chuva que atingiu o estado do Rio de Janeiro entre a noite de ontem e a madrugada desta quinta-feira causou muitos problemas em diversos bairros de Duque de Caxias. Até o momento, estima-se que mais de 200 pessoas já se encontram desabrigadas. Pedimos a todos que possam contribuir com água potável, material de limpeza, higiene pessoal, primeiros socorros, roupas, alimentos não perecíveis, entre outros. Todo esse material é necessário e será bem-vindo. Para mais informações: Fale Conosco ou por telefone: 2671-7797. O museu fica na Rua Aílton da Costa, s/n – Bairro 25 de Agosto – em Duque de Caxias. O horário de funcionamento é: de terça a sábado, das 9h às 17h e domingo e feriados, das 13h às 17h”.