Criança queimada no DF recusou ir à casa de amigo para não deixar irmã só

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Artesão foi à casa da família para cobrar dívida de R$ 500 feita por irmão.
Vítimas estavam sozinhas e começaram a gritar; crime ocorreu em Ceilândia.

Do G1 DF

 A gente saiu da escola, porque as aulas foram suspensas por causa da gravidez da professora, e foi para a casa dele. Ficamos um tempo brincando lá, mas minha mãe me chamou para ir para casa. Chamei o João Guilherme para ir comigo, mas ele não quis. Preferiu ficar em casa com a irmã”
Juan Lima, melhor amigo de menino encontrado amarrado e carbonizado dentro de casa, no DF

Melhor amigo do menino de 9 anos morto junto com a irmã após ser amarrado e queimado por causa de uma dívida de R$ 500 no Distrito Federal, Juan Lima, de 12 anos, afirmou nesta terça-feira (13) ainda não acreditar no que aconteceu. O garoto estava na residência da família até uma hora antes do crime e convidou João Guilherme para brincar na casa dele. A criança teria se recusado, alegando que não queria deixar a irmã sozinha.

“A gente saiu da escola, porque as aulas foram suspensas por causa da gravidez da professora, e foi para a casa dele. Ficamos um tempo brincando lá, mas minha mãe me chamou para ir para casa. Chamei o João Guilherme para ir comigo, mas ele não quis. Preferiu ficar em casa com a irmã [que tinha 13 anos].”

O adolescente disse que não chegou a encontrar com o artesão Rômulo Nascimento, de 21 anos, principal suspeito do crime. A notícia da morte das crianças, encontradas amarradas e carbonizadas na tarde desta segunda, provocou revolta na vizinhança.

O artesão confessou a ação em depoimento à polícia e disse que as agrediu porque elas começaram a gritar depois que ele invadiu a residência para levar um notebook, um tablet e uma máquina fotográfica como forma de pagamento da vítima. Os dois estavam sozinhos em casa, e o suspeito já havia passado no local horas antes para pegar parte do que o irmão delas lhes devia pela compra de pulseiras e colares.

Menino de 9 e menina de 13 anos, mortos carbonizados após serem amarrados dentro de casa, no DF, por dívida de R$ 500 feita por irmão mais velho (Foto: TV Globo/Reprodução)Menino de 9 e menina de 13 anos, mortos carbonizados após serem amarrados dentro de casa, no DF, por dívida de R$ 500 feita por irmão mais velho (Foto: TV Globo/Reprodução)

O homem teria voltado ao local sob o pretexto de buscar algo que havia esquecido. Como as crianças ofereceram resistência quando ele decidiu pegar o notebook, ele amarrou a menina com um fio de telefone e o menino com um pedaço de lençol e os trancou em quartos diferentes.

O artesão usou então um sofá para impedir que eles deixassem os cômodos – o passo a passo foi revelado em um desenho feito à polícia. Um laudo preliminar divulgado pela polícia aponta que as vítimas também apanharam e foram amordaçadas durante a ação.

Vizinha da família, a cerimonialista Dorcas Mustafá disse que não notou a situação a princípio, mas depois chamou um vizinho que é bombeiro e estava de folga para ajudá-la no resgate. Uma janela liga a varanda da casa dela à residência da família. Por meio dela, a dupla tentou jogar água com um balde e com uma mangueira fina.

“Escutei os gritos de socorro, vi a fumaça preta saindo pela janela”, lembra. “O Luiz Carlos tentou entrar, mas a fumaça estava muito forte e ele estava sem equipamento de segurança. Ele ficou extremamente frustrado, falando de todas as coisas que poderia ter feito e não pensou na hora. Até tive que brigar com ele, porque fizemos o máximo que podíamos.”

Dorcas disse ainda que encontrou a mãe das crianças na porta de casa, chorando muito e duvidando do que havia acontecido. “Ela gritava que o filho não estava na casa, estava na escola, e que tinha esperança de que a filha também tivesse saído. Então, três bombeiros entraram e trouxeram os corpos para fora. Eles tinham os braços queimados, a menina tinha a boca machucada.”

Bombeiros tentam controlar fogo em casa em que crianças foram achadas amarradas e carbonizadas no DF (Foto: Marcos Rodrigues/Arquivo Pessoal)Bombeiros tentam controlar fogo em casa em que crianças
foram achadas amarradas e carbonizadas no DF
(Foto: Marcos Rodrigues/Arquivo Pessoal)

Um registro feito pelo morador da QNM 7, em Ceilândia, Marcos Rodrigues mostra os militares tentando controlar o incêndio. O jovem de 22 anos falou que estava na calçada e viu Nascimento passando com uma mala azul e o notebook debaixo do braço, mas não desconfiou do crime.

“Ele estava andando muito calmamente, muito tranquilo, então ninguém suspeitou de nada. A gente só reparou nele porque ele tinha uma barba muito estranha, achamos engraçado. Fui reconhecê-lo ao ver as imagens dele hoje de manhã na TV.”

Em forma de protesto pelo que ocorreu, amigos e familiares afixaram cartazes no portão da casa da família, que está fechada para perícia. Eles deixaram mensagens de carinho e pediram por justiça. Colegas de escola das crianças planejaram uma manifestação para o fim da tarde desta terça.

Amigos deixam cartazes na porta de crianças achadas amarradas e carbonizadas no DF (Foto: Luiza Facchina/G1)Amigos deixam cartazes na porta de crianças achadas amarradas e carbonizadas no DF (Foto: Luiza Facchina/G1)

Família
Irmão mais velho das crianças queimadas, Marcos Paulo Silva Santos, de 21 anos, esteve em frente à casa da família na tarde desta terça. Ele disse que não queria comentar o caso, mas pediu aos amigos para jogar no chão as pulseiras e colares que já haviam comprado do suspeito. Amiga do rapaz, Gabriela Loísa disse que Nascimento costumava se encontrar com o grupo eventualmente, mas que ninguém sabia muito sobre a vida dele.

Artesanato comprado por irmão mais velho das crianças de suspeito de amarrá-las e queimá-las no DF (Foto: Luiza Facchina/G1)Artesanato comprado por irmão mais velho das crianças de suspeito de amarrá-las e queimá-las no DF (Foto: Luiza Facchina/G1)

Liberada do hospital ainda nesta segunda após sofrer uma parada cardiorrespiratória, a mãe das crianças foi para a casa de familiares em Santa Maria. Os corpos das crianças continuam no Instituto Médico Legal. Não há previsão para o enterro.

Crime
Na versão apresentada à polícia, o suspeito afirmou que teria vendido, alguns dias antes, peças de artesanato ao irmão mais velho das vítimas. No fim de semana, o homem contou que havia cobrado do cliente o valor dos produtos, e ouviu que deveria ir à casa da família na segunda-feira, para receber parte do valor.

Conforme o combinado, o artesão foi até a residência e lá recebeu R$ 100 do irmão das vítimas. Pouco depois, o rapaz voltou ao local, tocou a campainha e encontrou a criança e a adolescente sozinhas. Ele disse aos dois que havia voltado porque esqueceu algo na casa.

Quando o homem falou que levaria embora um notebook para liquidar a dívida, asvítimas começaram a gritar. O suspeito, então, revelou que pôs a menina em um quarto e amarrou as mãos dela com um fio de telefone. Depois, conduziu o garoto a outro quarto e o amarrou com um pedaço de lençol rasgado.

O jovem decidiu, então, escorar cadeiras e um sofá nas portas dos dormitórios para impedir que os irmãos saíssem e colocou fogo na residência. Saindo de lá, o autor do crime ainda encontrou a mãe das vítimas na rua, que o cumprimentou.

Desenho feito por suspeito de amarrar crianças no DF e atear fogo na casa delas por causa de dívida de R$ 500 (Foto: TV Globo/Reprodução)Desenho feito por suspeito de amarrar crianças no DF e atear fogo na casa delas por causa de dívida de R$ 500 (Foto: TV Globo/Reprodução)

A Polícia Civil informou que o suspeito não tinha antecedentes criminais. Ele vai responder por duplo latrocínio (roubo seguido de morte) e pode pegar até 60 anos de prisão. Detido no Departamento de Polícia Especializada, o homem deve ser transferido para o Complexo Penitenciário da Papuda ainda nesta terça-feira.