Enivaldo: “Barra de São Francisco precisa de mais empregos e qualificar mão-de-obra”

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Enivaldo e Alencar
Enivaldo e Alencar

O Espírito Santo está em pleno desenvolvimento econômico, com média de desemprego de 7,3% da mão-de-obra economicamente ativa, o nono menor índice do País, mas Barra de São Francisco, apesar da intensa movimentação provocada pela expansão da indústria de granitos, está entre os municípios com desemprego acima da média estadual.

De acordo com estudo do jornal O Globo, tomando por base o Censo do IBGE de 2010, o município tem desemprego de 8,3%, o que representa cerca de 1.700 pessoas. E a situação só não é pior porque, há 20 anos, em meio a grave crise e ao clima de incertezas econômicas no País e, especialmente, na cidade, o então prefeito Enivaldo dos Anjos tomou medidas consideradas ousadas ainda nos dias atuais.

Aos 62 anos, Enivaldo dos Anjos, depois de ser secretário de Estado, deputado por dois mandatos, conselheiro do Tribunal de Contas do Espírito Santo por 10 anos, volta a se submeter ao batismo das urnas, pelo PSD, com um vice do PT e um leque de alianças que congrega dez partidos. Diante desse novo desafio, quais serão as ideias do candidato a prefeito para recuperar a economia municipal, 20 anos depois de deixar a Prefeitura? O que fazer para enfrentar os problemas do desemprego e arrancar para o futuro? Saiba o que pensa Enivaldo dos Anjos.

Sentinela – Por que o sr. quer ser prefeito de Barra de São Francisco, 20 anos depois, quando poderia projetar uma carreira na política estadual, já que é suplente de senador e presidente do PSD?

Enivaldo – Sou candidato a prefeito não é porque estou procurando mais um emprego, mas para alavancar o desenvolvimento do município, e atendendo a um apelo da sociedade civil organizada, de jovens, adultos e idosos, mulheres, produtores rurais, comerciantes, industriais, enfim, todas as pessoas de bem que querem o bem da cidade. O município atravessa um momento que, se cair nas mãos de gente irresponsável, vai ser o caos.

Sentinela – Qual o paralelo que o sr. traça entre o município que herdou em 1998 e este de agora, que pretende assumir?

Enivaldo – Pelo menos, encontro os salários dos servidores em dia e há um consolidado trabalho de assistência social. O prefeito atual, porém, não pôde fazer investimento nenhum porque seu antecessor, por coincidência, o mesmo meu há 20 anos, deixou-lhe como herança a falta de crédito público e débitos com a Previdência, que impediram que a prefeitura obtivesse as certidões negativas para fazer financiamentos e receber investimentos públicos estaduais e federais.

Sentinela – Mas eu falo também de estrutura econômica…

Enivaldo – Há 20 anos, havia desesperança e tivemos de recuperar a auto-estima dos francisquenses. A população deixava a região em caminhões e ônibus que saíam, diariamente, para Rondônia, havia desencanto no campo, centenas de propriedades estavam sendo levadas a leilão por causa de dívidas bancárias contraídas em meados da década de 80, no Plano Cruzado, as lavouras de café estavam sendo abandonadas, o rebanho definhava no pasto, onde a produtividade de leite, por exemplo, atingia menos de 3 litros por dia, a capacidade de investimento público da Prefeitura era baixíssima. Herdamos quatro meses de salários atrasados, máquinas e veículos quebrados e até as chaves da prefeitura sumiram.

Sentinela – E o que mudou de lá prá cá?

Enivaldo – Em meio a esse caos, a esperança brotou do subsolo. Foram descobertas grandes jazidas de granito sem igual no mundo. Porém, não havia nenhuma industrialização. Carretas transitavam, diariamente, transportando centenas de blocos de granito para laminadores do Sul do Estado, somente deixando para trás estradas esburacadas e pontes quebradas. Cheguei a proibir o tráfego de caminhões na cidade. Temos esse quadro de desemprego revelado pelo IBGE, mas, se a situação de hoje em Barra de São Francisco não está pior, deve-se, justamente, ao que foi feito, há 20 anos, para enfrentar o caos.

Sentinela – Foi a preparação da infraestrutura para a dinamização econômica, é isso?

Enivaldo – É importante dizer, primeiro, o que fizemos na gestão pública. Como prefeito, fiz uma massiva campanha de conscientização das pessoas para que não se deixassem levar pela “ilusão Rondônia” e mostramos como a maioria dos que partiam acabavam voltando com uma mão na frente e outra atrás. Prestava contas publicamente dos gastos municipais, com um painel em praça pública e a contabilidade da prefeitura à disposição de quem quisesse olhar. O orçamento era feito com a participação popular e criei um Conselho de Administração com 30 representantes das pessoas mais experientes do município.

Demos atenção às crianças, com creches, escolas de qualidade, criamos a primeira escola de tempo integral do Estado, enfrentamos o problema da mortalidade infantil, que reduzimos quase a zero; amparamos as gestantes, com pré-natal gratuito na Casa das Gestantes; acolhemos os idosos, criando um programa de proteção para eles muito antes de existir Estatuto do Idoso.

Para recuperar a economia, empreendemos uma política de recuperação econômica do município, repercussão que eu não teria tempo de ver em minha administração, mas estava administrando para o futuro. A cidade não tinha como crescer. Então, compramos, pela Prefeitura, 63 alqueires de terra nos arredores da cidade. Foi graças a isso que pudemos criar o pólo industrial, onde passaram a se instalar as empresas de processamento de granito, em torno de uma envazadora de gás, e nas margens da rodovia para Mantena instalaram-se outras indústrias. Nessas áreas foram criados três novos bairros: Vila Luciene, Vila Vicente e Nova Barra, na área onde, inicialmente, foi criado o Parque da Vaquejada.

Sentinela – Mas o sr. dava esses lotes? Isso não é clientelismo?

Enivaldo – Não, não dávamos os lotes. Criamos um Fundo Municipal e um convênio com a Cohab. Precisávamos enfrentar o déficit habitacional e enfrentamos. As pessoas pagavam 10% do salário mínimo, que era recolhido ao Fundo, que a Cohab geria. Esse dinheiro era para fazer obras de melhoramento nesses novos bairros. Mais tarde, depois que saí da Prefeitura, aprovaram uma lei para acabar com o pagamento. Quer dizer, doaram os lotes, mesmo sabendo que era necessário fazer a infraestrutura.

Começamos com Vila Luciene, depois a Vila Vicente. Na área onde criamos o Parque de Vaquejada está hoje o bairro Nova Barra. Criamos o Condomínio dos Anjos, para funcionários públicos municipais, mais de 200 casas em Vila Paulista estão numa área junto ao campo de futebol, que foi feito em terreno que também compramos pela prefeitura. Há pelo menos 300 casas no Loteamento Vidal em áreas que também compramos na época. Ou seja, há hoje no município pelo menos 2.500 casas que foram construídas em áreas que compramos na época para expandir a cidade. Agora, eu volto para fazer o que não foi feito.

Sentinela – O sr. falou da criação do Pólo Industrial. Em termos concretos, o que aconteceu a partir dessa iniciativa?

Enivaldo – Existem 1.700 pessoas desempregadas hoje em Barra de São Francisco, segundo esses dados compilados pelo Globo, mas, graças à política de infraestrutura que eu criei, vieram indústrias para a cidade e há pelo menos 6 mil pessoas trabalhando em função disso. Se não tivéssemos preparado o caminho, o que seria do município? Onde estaria essa gente? Engrossando a periferia de Vitória, sofrendo em Rondônia, ou vivendo em condições sub-humanas aqui mesmo? O número de empresas da cadeia produtiva do granito cresceu 150% nos últimos anos e isso tem uma ligação com aquilo que fizemos. A cidade hoje tem mais hoteis, restaurantes, uma média de renda bem maior do que naqueles tempos.

Sentinela – Mas tem também quase 2 mil pessoas desempregadas…

Enivaldo – Sim, mas isso é por que? Porque faltou continuidade. Todos os dias, 400 carretas transitam nas rodovias carregando pedras, viajando nove horas até Cachoeiro. As indústrias de lá estão desesperadas, querendo vir para cá e não encontram onde se instalar. Vamos enfrentar isso no primeiro momento na Prefeitura, comprando 30 alqueires de terra para instalar o Pólo Industrial II. Isso vai gerar emprego, mas você vai me dizer que as pessoas não estão qualificadas. É verdade, mas o meu vice, Alencar Marim, é uma pessoa preparada para nos ajudar na administração. Vamos criar um programa de qualificação de mão-de-obra através do Sine e do Instituto Federal de Ensino, que, agora, vai poder vir para a cidade. Depois de muita negociação, a Prefeitura conseguiu pactuar o pagamento da dívida com o INSS e vamos começar em condições de fazer o que tem de ser feito.

Sentinela – O sr. não falou nada sobre a agricultura, que sempre foi a base da economia da cidade.

Enivaldo – Há 20 anos, fizemos várias inovações, além de investir em melhorias para o homem do campo. Investimos na manutenção de estradas, construímos pontes, levamos escolas para o interior, criamos patrulha mecanizada, eletrificação rural. Criamos um Programa de Incentivo à Agricultura, distribuímos sementes selecionados para as associações de produtores, abrimos centenas de poços para cultivo de peixes, criamos a Fazendinha, introduzindo galinhas de raça, pequenos animais, trouxemos tourinhos holandeses do Uruguai, criamos um programa de inseminação artificial para melhoria genética do rebanho.

E sabe o que aconteceu? Barra de São Francisco teve um dos mais altos índices de aumento de produtividade de leite do Brasil depois do ano 2000, foi publicado pela revista Balde Branco, e isso se deveu àquilo que fizemos 10 anos antes. Tem gente fazendo renda com peixe até hoje nos poços que abrimos.  Mas é necessário retomar esses programas, criar uma base no campo para alimentar a cidade. Há poucas semanas ouvi um empresário muito experiente falando que Barra de São Francisco vai se tornar uma Região Metropolitana. Precisamos nos preparar para isso.

Sentinela – E quais são suas ideias para isso?

Enivaldo – Primeiro, o que já falei, que é a aquisição de uma área para expansão do parque industrial. Mas temos demanda para pelo menos 3 mil casas no município e vamos comprar áreas para essa expansão, levando o projeto também para os distritos, porque eles também precisam crescer. No momento em que a gente promove o crescimento econômico pela indústria, a agricultura vem junto. Se o pessoal da agricultura estiver entusiasmado com o negócio deles, eu também estarei. De antemão posso garantir que 50% dos investimentos da Prefeitura serão feitos no interior. Se o pessoal estiver animado, eu aumento esse índice.

Fico muito incomodado quando olho os números do IBGE e vejo que em 2004 produzíamos 9,4 mil toneladas de café e hoje produzimos 8,4 mil. A área plantada diminuiu pela metade, de 14.800 hectares para 7 mil hectares em oito anos. Isso traz um dado positivo: melhorou a produtividade, de 657kg por hectare para 1.200kg por hectare. Se aumentarmos a área plantada para os mesmos números de antes, com a mesma produtividade ou melhor, vamos produzir 16 mil toneladas de café e gerar mais de R$ 50 milhões de receita no campo.

Ouço falar de gente plantando uva. Precisamos da diversificação, com profissionalismo. Temos solo parecido com municípios vizinhos, que têm grande diversificação, com produção de coco, que tem uma demanda crescente nos grandes centros, o ano inteiro. Há oito anos, produzíamos 4 milhões de frutas em 350 hectares plantados de coco e hoje não temos nem um hectare plantado. Podemos, com a força de nossa gente e uma administração honesta e transparente, transformar Barra de São Francisco num oásis em pleno sertão capixaba, e alavancar o progresso econômico e humano de toda uma região, que abrange até mesmo Minas Gerais.

Sentinela – Os antigos programas sociais vão retornar?

Enivaldo – Lógico. Estávamos à frente de nosso tempo e nunca se falou tanto em promoção humana quanto em nossos dias. Vamos criar programas para os jovens, criar opções de lazer gratuito, como fizemos com a Cachoeira do Granito, incentivar a cultura, melhorar as condições de ensino, incentivar a continuidade dos estudos técnico e superior. Vamos dar atenção às crianças como fizemos há 20 anos, reativar a Casa da Gestante, a Casa do Idoso, promover excursões.

E vamos também enfrentar os problemas novos que surgiram. A violência, a mobilidade urbana, o problema das drogas. Outro dia o senador Magno Malta prometeu colocar no orçamento federal dinheiro para construir um campo de futebol alambrado e iluminado em cada distrito. Vamos fazer isso para dar opção de lazer às pessoas, incentivar os esportes. Sou um homem ligado ao esporte. O Brasil só vai falar nisso nos próximos anos, por causa da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Vamos aproveitar a onda e incentivar os jovens à prática esportiva. É assim que se cria a cultura da paz em uma cidade, não com fofocas e irresponsabilidades.