Médico é indiciado e vai responder na Justiça por morte de adolescente no Norte do ES

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Yasmin Nass, de 12 anos, morreu e o médico Ethevaldo Rogério de Almeida foi indiciado por homicídio culposo por negligência médica — Foto: Divulgação

Yasmin Nass, de 12 anos, morreu e o médico Ethevaldo Rogério de Almeida foi indiciado por homicídio culposo por negligência médica — Foto: Divulgação

O médico Ethevaldo Rogério de Almeida foi indiciado pela Polícia Civil pelo crime de homicídio culposo por negligência médica por conta da morte de Yasmin Nass, de 12 anos. A adolescente foi a óbito no dia 26 de abril de 2023, após dar entrada no Hospital e Maternidade Cristo Rei, de Boa Esperança, no Noroeste do Espírito Santo, com sintomas gripais.

família de Yasmin alegou que o médico não deu a atenção necessária no atendimento prestado, visto os sinais graves apresentados pela adolescente. Além disso, os familiares entenderam que a avaliação feita, seguida das liberações da garota, resultaram no agravamento do quadro clínico e na necessidade de uma transferência para um hospital com mais suporte.

A mãe de Yasmin, Maria Cristina Nass, relatou que na manhã do dia 24 de abril, uma segunda-feira, a filha amanheceu com coriza, tosse, garganta inflamada e dores no peito. Devido ao quadro de saúde, a mãe resolveu levar Yasmin ao Hospital e Maternidade Cristo Rei.

“Lá, ela consultou com o doutor Ethevaldo, que solicitou uma raio-x do tórax da minha filha. Depois, ele a liberou para ir para casa”, disse Maria Cristina.

Yasmin Nass, de 12 anos, morreu e o médico Ethevaldo Rogério de Almeida foi indiciado por homicídio culposo por negligência médica — Foto: Divulgação

Ao longo daquele dia, Yasmin não teve piora. No entanto, no dia seguinte, a mãe contou à reportagem que a filha teve um desmaio. Por isso, ela levou novamente a adolescente ao mesmo hospital.

Na unidade, Yasmin foi mais uma vez atendida pelo doutor Ethevaldo, que a examinou e disse que a adolescente estava bem. Segundo Maria Cristina, o médico disse que a filha dela deveria ser atendida por um neurologista, pois os sintomas dela seriam neurais. Naquele dia, a adolescente tomou soro e foi liberada.

“Ele olhou ela e disse que minha filha estava bem, que o caso dela era de neurologista, pois era ‘coisa da cabeça dela'”, disse Maria Cristina.

No decorrer do dia, Yasmin teve uma piora no quadro clínico. Segundo a mãe, a filha sofreu outro desmaio no final da tarde, sendo levada às pressas para o mesmo hospital da cidade.

“Chegamos e era ele [o dr.Ethevaldo] de novo. Ele aplicou alguns remédios nela […], a pressão dela abaixou e ela desmaiou novamente. Minha filha relatava que estava com muita dor na região do peito, e ele [o médico] disse novamente que o problema dela era neural”, contou Maria Cristina.

Enquanto a filha era examinada, a mãe conta que percebeu que Yasmin estava ficando roxa. “Nessa hora, pedi para que ela fosse encaminhada ao Roberto Silvares”, acrescentou.

Hospital Estadual Roberto Silvares, em São Mateus — Foto: Divulgação

Hospital Estadual Roberto Silvares, em São Mateus — Foto: Divulgação

Por volta das 21h do dia 25 de abril, Yasmin foi levada, em emergência, ao Hospital Estadual Roberto Silvares, em São Mateus. Segundo Maria Cristina, a filha foi transportada em uma ambulância simples, sem oxigênio, dopada de remédios, e sem a assistência necessária da enfermeira que a acompanhava.

Ao chegar em São Mateus, a equipe médica do Roberto Silvares percebeu que Yasmin já estava em coma. A adolescente foi intubada e foram feitas tentativas de reanimação. Contudo, na madrugada do dia 26 de abril, Yasmin não resistiu e foi a óbito.

De acordo com Maria Cristina, no Roberto Silvares, Yasmin foi submetida à testagem para Covid-19 e dengue. Segundo ela, ambos os resultados deram negativo.

No laudo de exame necroscópico da adolescente, consta que Yasmin foi diagnosticada com edema cerebral e pulmonar, além de distúrbios metabólico, ácido básico e hidroeletrolítico. A causa da morte da adolescente, porém, não foi determinada.

Caso na Justiça

Devido às atitudes adotadas pelo médico, a família de Yasmin resolveu levar o caso à Justiça. A situação foi investigada pela Delegacia de Polícia de Boa Esperança, que concluiu o inquérito policial e indiciou o dr. Ethevaldo pelo crime de homicídio culposo por negligência médica. O caso foi reportado ao Ministério Público do Espírito Santo (MPES), que informou que ofereceu denúncia em face do referido médico.

Além de levar o caso às autoridades, há quase um ano Maria Cristina mantém um perfil em uma rede social para pedir Justiça pela filha. Desde a morte de Yasmin, a família espalha cartazes pela cidade para que o caso da adolescente nunca seja esquecido.

O que dizem as autoridades

 

A Polícia Civil informou, em nota, que o inquérito policial, presidido pela Delegacia de Polícia de Boa Esperança, foi concluído, representando pelo indiciamento do investigado pelo crime de homicídio culposo por negligência médica e relatado ao Ministério Público (MPES).

O Ministério Público, por sua vez, comunicou, em nota, que ofereceu denúncia em face do referido médico pelo crime de homicídio culposo por negligência médica. “A denúncia tramita na Justiça e o MPES atua para obter a condenação do réu com base nas provas descritas nos autos”, informou o órgão.

A reportagem também procurou o Conselho Regional de Medicina do Espírito Santo (CRM-ES), que comunicou que o Tribunal de Ética do CRM-ES só pode atuar se for provocado, assim como todo órgão judicante. “Se a denúncia foi ou for feita ao CRM-ES, ele vai apurar, abrindo sindicância e, caso se avelie que há indícios de falta ética, pode ser aberto um processo”, acrescentou o órgão.

O CRM-ES informou, ainda, que as punições, quando o médico é condenado, variam de uma advertência confidencial em aviso reservado à cassação do exercício profissional.

A Secretaria de Estado da Saúde informou, em nota, que não divulga informações (prontuário) relacionadas a cidadãos ou pacientes atendidos pelas equipes da rede estadual em observância à Lei Geral de Proteção de Dados, bem como ao princípio da liberdade e da privacidade. “As informações são repassadas exclusivamente para a família”, finalizou.

A Prefeitura de Boa Esperança, por meio da Secretaria de Saúde do município, comunicou que o hospital tem uma empresa responsável pela contratação dos profissionais, onde os mesmos são médicos plantonistas não fixos. A reportagem procurou o Hospital e Maternidade Cristo Rei para mais informações. Assim que houver retorno, o texto será atualizado.

O que diz o médico

Procurada pela reportagem, a defesa de Ethevaldo Rogério de Almeida, representada pelo advogado Anderson Gutemberg Costa, informou que está confiante no Poder Judiciário, onde será possível a produção de provas que atestem o correto procedimento adotado pelo profissional.

“O inquérito policial é um procedimento unilateral, inquisitivo e que, portanto, não teve mínima participação da defesa. O indiciamento pela Polícia Civil do médico não gera nenhuma surpresa, principalmente pelas circunstâncias do fato apurado”, disse.