Policiais Militares estariam ameaçando membros do Júri e julgamento de acusados de matar Saender é adiado em Ecoporanga

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Saender Marcos da Silva, assassinado covardemente em Ecoporanga

Por decisão do desembargador-substituto Jorge Henrique Valle dos Santos, atendendo a pedido do Ministério Público Estadual (MPE), foi adiada a sessão do Tribunal do Júri Popular de Ecoporanga, no extremo da região Noroeste do Estado, a 330km de Vitória, que julgaria, nesta quinta-feira (26), os acusados pelo assassinato de Saender Marcos da Silva, 29 anos, instrutor de Centro de Formação de Condutores (auto-escola).

O desembargador acolheu petição do Ministério Público Estadual, nos autos da ação penal pública 0000967-77.2009.8.08.0019 (019.09.000967-1), de desaforamento do julgamento porque membros do Tribunal do Júri estariam sendo ameaçados pelos dois policiais militares denunciados como mandantes do crime, Carlito Albino e Valdeni Ferreira de Souza (Coelho).

Segundo o MP, os dois PMs estão em liberdade e atuando livremente na Comarca de Ecoporanga e demais imediações, motivo suficiente para pressionar a opinião dos jurados, que estariam sendo psicologicamente coagidos pelo uso ostensivo da farda.

Em Nota expedida nesta quarta-feira (25), a Polícia Militar informou o seguinte: “A Corregedoria da Polícia Militar informa que os militares respondem a Conselho de Disciplina. A corporação aguarda o julgamento da Justiça para solucionar o procedimento que pode levar a exclusão dos militares dos quadros da PM. Eles estão afastados das funções e respondem ao conselho em liberdade pois não foi decretada a prisão dos mesmos”.

Foi o segundo adiamento do julgamento dos acusados da morte de Saender. O juiz Erildo Martins Neto havia agendado o júri para 26 de outubro de 2011, mas o transferiu devido ao mesmo pedido feito pelo Ministério Público. Desta vez, ele havia negado o pedido e marcou o júri, mas o MP recorreu ao Tribunal de Justiça.

Na sessão, que havia sido marcada para esta quinta-feira (26), seriam julgados os dois executores: Fábio Marques Neto, o “Fabinho”, e Antônio Marcos Neto, o “Toninho”, que já foi condenado por outro homicídio na região. Os dois estão presos, provisoriamente, desde que foram detidos acusados da morte de Saender, há mais de três anos.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Estadual, Saender foi morto com um tiro na testa, no dia 26 de março de 2009, por volta das 21h40, depois de ser raptado e conduzido ao local da execução, na parte alta de uma fazenda. Fábio é acusado de ter dado o tiro que levou à morte de Saender, enquanto Antonio o ajudou a conduzir a vítima até o local do crime e a colocá-la na cova, supostamente, ainda viva.

O MP ofereceu denúncia em face de Fábio Marques Neto, vulgo “Fabinho”, Antônio Marques Neto, vulgo “Toninho”, Bruno Luiz Zortéa (processo desmembrado), Carlito Albino, Valdeni Ferreira da Silva e Valtair Fraga, devidamente qualificados nos autos, atribuindo-lhes as práticas dos crimes descritos nos artigos 121, 2º, incisos I e IV, 211, c.c. artigo 29 e 69, todos do Código Penal e artigo 1º, inciso I da lei 8072/90, sendo que, além destes, imputa-se ainda o crime descrito no art. 12 da Lei 10.826/2003 (posse ou porte ilegal de arma) ao réu Valtair Fraga, conforme descreve peça acusatória.

Nos autos do processo, o denunciado Valtair Fraga é acusado de ter fornecido as ferramentas utilizadas para a ocultação do cadáver da vítima, tais como uma pá e um enxadão. Narra ainda a denúncia do MP que o delito teria sido a mando dos policiais militares Valdeni Ferreira da Silva e Carlito Albino.

De acordo com decisão do juiz nos autos do processo , os crimes de rapto e morte de Saender causaram grande repercussão na sociedade ecoporanguense, que anseia por uma resposta da Justiça, a fim de que se garanta a credibilidade das instituições jurídicas.

SAIBA MAIS

Seis pessoas foram presas em Ecoporanga, acusadas do assassinato do instrutor de auto-escola. A vítima havia desaparecido no dia 26 de março de 2009, depois de beber em um bar com amigos. O corpo só foi encontrado quase um mês depois, após uma denúncia anônima.

Uma testemunha-chave contou em juízo que estava no banco traseiro de um carro conduzido por Fabinho e que, após a entrada de Toninho no carro, foram em direção ao distrito de Joassuba. A testemunha, ainda na cidade, perguntou a Fabinho o que estava acontecendo e, nesse momento, o condutor mandou que ele abrisse a tampa do porta-malas, quando foi surpreendido ao ver que ali, totalmente amarrado, estava Saender, que ele conhecia de vista e parecia morto ou desmaiado.

Durante o trajeto para o interior, a testemunha disse que ficou com muito medo, mas que não foi informado por Fabinho e Toninho o que estava acontecendo. Perto do Parque de Exposições, Fabinho parou o carro perto de uma casa e neste local foram apanhadas ferramentas, além de a vítima ter sido mostrada ao dono da casa, que o declarante não soube informar quem era.

Depois disso, seguiram adiante e, na propriedade do senhor conhecido por Carlitinho, bem no alto, a vítima foi retirada do carro por Fabiano e Toninho e colocada ao chão. Então, foi pedido ao declarante que ajudasse a cavar um buraco e, a princípio, o declarante se recusou. Porém, sob pressão e com muito medo, acabou apoderando-se da pá e ajudou a tirar um pouco da terra, mas tudo por medo, e quem cavava e tirava os entulhos era somente o Fabinho e o Toninho.

Depois de tudo pronto, a testemunha contou que a vítima foi posta no buraco por Fabinho e Toninho. Então, já com Saender dentro do buraco, Fabinho, de posse de uma arma, efetuou um único disparo na testa da vítima e depois acabaram de enterrá-la, sem mesmo terem certeza de que estava, totalmente, morta.

Outra testemunha contou em juízo que, pouco antes de morrer, quando esteve em Aracruz, onde o depoente morava, Saender contou para ele que estava namorando uma ex-namorada de um policial, que não estaria gostando da situação e chegou a ameaçá-lo.

(As informações são da Assessoria de Comunicação do TJES)