Professora sacrifica gatos e gera revolta em alunos em Píuma

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Sindicância foi aberta para apuração dos fatos no Ifes de Piúma.
Bióloga Sônia Flores alega que ato de ‘natureza piedosa’.

 e Amanda MonteiroDo G1 ES

 A bióloga Sônia Flores Rodrigues, professora do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) emPiúma, região Sul do Espírito Santo, está sendo investigada por sacrificar quatro filhotes de gatos. De acordo com alunos que denunciaram o fato, o ato aconteceu dentro da própria instituição. Por meio de uma declaração pública, a professora alegou que sacrificou os filhotes por causa  da fragilidade deles. Segundo ela, os felinos estavam desidratados, sem cuidados maternos e com pouca chance de sobrevivência. Em nota, o Ifes disse que uma sindicância foi aberta para a apuração dos fatos, nesta quinta-feira (10). Todos os envolvidos devem prestar depoimento à polícia nos próximos dias. O inquérito será encaminhado para a Justiça.
Caso ganhou as redes sociais (Foto: Reprodução/ Facebook)Caso ganhou as redes sociais (Foto: Reprodução/ Facebook)

A situação aconteceu no dia 27 de março. A advogada e mãe de alunos da instituição, Francislaine Ciciliotti, contou que os filhos chegaram assustados em casa. “Eles estavam muito chateados, não queriam voltar para escola, queriam sair do Ifes porque um professor tinha estrangulado quatro filhotinhos de gatos”, diz.

Ela conta que foram os próprios estudantes que levaram os animais para o campus. “Os alunos encontraram os animais abandonados e levaram para lá, para ver se a professora podia cuidar deles, ter uma orientação, porque eles sabiam que ela gostava de gatos”, disse.

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Ainda segundo Francislaine, todos ficaram perplexos e surpresos com a atitude da professora. “É assustador acontecer isso dentro de uma instituição de ensino, ainda mais por um professor que está ali para ensinar e instruir nossos filhos”, falou.

Apesar da declaração da mãe, segundo o Ifes, não há relatos nem indícios de que o ato tenha sido presenciado por estudantes, nem realizado durante atividades relacionadas ao ensino.

A situação ganhou as redes sociais. A foto de uma gata próxima a um cartaz escrito ‘Eu não mereço ser estrangulada’ está entre as mais compartilhadas e faz comparação com a frase  da campanha ‘Eu não mereço ser estuprada’.

O caso está sendo investigado pela polícia. De acordo com o delegado Milton Sabino, se for comprovado que os gatos foram estrangulados, a professora pode pegar de três meses a um ano de detenção. “Maus tratos aos animais é crime, previsto no artigo 32 da lei 9605/98 e prevê pena de três meses a um ano e pode aumentar até um terço se for constatada a morte do animal”, ressaltou.

‘Foi um ato de natureza piedosa’
Com uma declaração pública, enviada ao Ifes e publicada no site da instituição, a professora esclareceu que a ação cometida por ela “foi um ato de natureza piedosa”. Segundo Sônia, os gatos recém-nascidos estavam abandonados e não apresentavam chances de sobrevivência pois estavam com a saúde debilitada. A professora ainda ressaltou seu apreço e dedicação aos animais.

“As calúnias publicadas contra mim demonstram total desconhecimento acerca de minha trajetória na defesa dos animais. Declaro que estou profundamente triste diante da divulgação mentirosa e descontextualizada de uma situação por mim vivenciada, com muito sofrimento”, disse Sonia, alegando que a maneira como a notícia tem sitdo divulgada na internet não condiz com a verdade.

Sociedade Protetora dos Animais
Questionada se a atitude da professora foi correta, a presidente da Sociedade Protetora dos Animais do Espírito Santo (Sopaes), Virgínia Brandão, afirmou que não. Na opinião dela, a professora deveria ter procurado um médico veterinário. “Não vejo a atitude dela como um ato de socorro, nem piedade. Se ela queria amenizar o sofrimento desses gatos e praticar a eutanásia, deveria procurar um médico veterinário, pois só ele pode fazer isso”, diz.

“Às vezes, a gente vê um animal sofrendo e acha que essa é a melhor solução, mas não é, porque isso traz mais sofrimento ainda. A eutanásia é uma anestesia profunda que paralisa os batimentos do coração sem causar dor”, complementa.

Conselho Regional de Biologia
O presidente do Conselho Regional de Biologia 2ª Região (CRBio-02), que abrange o Espírito Santo, Vicente Moreira Conti afirma que a professora deveria ter buscado outros recursos antes de tomar a iniciativa de sacrificar os animais. “O biólogo tem como princípio preservar a vida. O profissional tem competência para atuar na fauna, mas nesse caso não competia a ela fazer essa avaliação clínica. Ela teria que buscar outras áreas, buscar alguma estrutura de proteção aos animais”, diz.

Ele ressalta a preocupação com a ética. “Como professora, ela é exemplo para muitos alunos e não deveria ter realizado um tratamento tão traumático. O biólogo deve seguir todas as normas relativas ao tratamento ético. A ação dela foge totalmente ao nosso código”, afirma.

O presidente afirma que a professora não possui registro no conselho e informou que vai acionar a fiscalização local. O Ifes informou que a professora é formada em Ciências Biológicas, tem mestrado, doutorado e é referência na área.

Confira a declaração da professora na íntegra
“As calúnias publicadas contra mim demonstram total desconhecimento acerca de minha trajetória na defesa dos animais. Eu vivenciei, ao longo da minha formação acadêmica e carreira docente, grande inquietude acerca do tratamento que a sociedade proporciona aos animais. De modo que essa questão esteve presente no horizonte de minhas preocupações, tendo sido, inclusive, alvo da discussão proposta por minha tese de doutoramento, na qual eu questiono o uso de animais nas atividades de ensino e pesquisa.  No exercício da docência, não utilizo animais nas aulas práticas.  Também defendo um discurso coerente com o respeito aos animais.

As   informações   publicadas   sobre   mim   nas   redes   sociais,   em   mensagens eletrônicas e no âmbito jornalístico até o momento, não são verdadeiras. Declaro que estou profundamente triste diante da divulgação mentirosa e descontextualizada de uma situação  por mim  vivenciada,   com  muito  sofrimento.  Essas   informações   levianas causaram grande comoção da comunidade escolar e extraescolar justamente por virem acompanhadas de interpretações profundamente errôneas das minhas atitudes.

A motivação do meu ato foi essencialmente o sofrimento experimentado pelos gatinhos recém-nascidos, que não tinham chances de sobrevivência frente a sua saúde debilitada, à desidratação, à fome e à carência de cuidados maternos, uma vez que estavam abandonados sem que se tivesse conhecimento da localização da mãe. Foi um ato de natureza piedosa, ainda que controverso na concepção de algumas pessoas. A multiplicidade das interpretações geradas a partir da minha atitude, conduzem-me  a oferecer a todos uma reflexão:

Quantas ‘mãos invisíveis’ interagiram na produção da morte desses gatinhos recém-nascidos?

As ‘mãos’ de uma sociedade que se recusa a enfrentar as mazelas por ela produzidas?
As ‘mãos’ de um poder público que até o momento não consolida uma política em defesa dos animais?
As ‘mãos’ de tutores negligentes que não castram e que abandonam seus animais?
As ‘mãos’ de pseudointelectuais que apresentam opiniões precipitadas sobre assuntos que desconhecem?
Honestamente, tenho várias hipóteses sobre os donos das várias ‘mãos invisíveis’ que participaram desse triste evento.
Mas somente eu experimentei o profundo sofrimento causado pela necessidade imperiosa de tomar uma decisão frente a um impasse de natureza ética.

Professora Sonia W. Flores Rodrigues.